Hélio Pellegrino

ALGUMA COISA

 

Alguma coisa resta: um gesto
nos tendões da mão engelhada.
Uma efusão inacabada
na ferrugem da pele-resto.

Alguma coisa que é da raça
dos minerais, insubornável,
além do amargo e do caroável,
do que perdura — e do que passa.

Alguma coisa inscrita: um grito
no fulgor do dedo anular.
Um puro incêndio sem queimar
— como um segredo afinal dito.

Governo divulga salários em junho e divide Esplanada

A polêmica tomou conta de Brasília. Sindicatos prometem ir à Justiça contra a decisão do governo de anunciar quanto ganha cada um dos 708 mil funcionários do Executivo

Portaria do Ministério do Planejamento detalha: a divulgação será nome a nome, a partir do mês que vem, no Portal da Transparência. Pela regra, não serão publicados contracheques, apenas o valor bruto, incluindo auxílios, ajudas de custo, jetons e quaisquer outras vantagensem dinheiro. Amedida é em cumprimento à Lei de Acesso à Informação, que entrou em vigor no dia 16 deste mês. Nos próximos dias, o Legislativo e o Judiciário também devem decidir como informarão os rendimentos de seus funcionários. Sindicatos que representam os servidores classificam a abertura dos salários à consulta pública como invasão de privacidade. (C.Braziliense)

Guerra entre Lula e Gilmar desafia CPI e Supremo

Ex-presidente nega pressão por mensalão; oposição pede que PGR investigue

Às vésperas do julgamento do mensalão e diante de uma CPI que apura o envolvimento de políticos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, uma guerra de versões entre o ex-presidente Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes acirrou ânimos entre governo e oposição. Pressionado pela OAB e por ministros do STF, Lula negou ter sugerido a Gilmar que adiasse o julgamento do mensalão: “Meu sentimento é de indignação.” Já Gilmar repetiu que, num encontro presenciado pelo ex-ministro Nelson Jobim, Lula lhe sugeriu que não seria conveniente julgar o caso num ano eleitoral. E deu a entender que, por controlar a CPI, poderia facilitar a vida do ministro caso a investigação chegasse a ele. A oposição protocolou requerimento na Procuradoria Geral da República para apurar se Lula incorreu em crimes de corrupção ativa, coação e tráfico de influência. (O Globo)

Chamadas de 1ª página_3ª-feira, 29.mai.12

O GLOBO – ‘Notáveis’ aprovam plantio de maconha

FOLHA DE SP – Lula rebate Mendes, que reafirma pressão no STF

ESTADÃO – Novo código é retrocesso, dizem ambientalistas

C. BRAZILIENSE – Cachoeira: CPI se decide sobre a Delta

VALOR ECONÔMICO – Vetos desagradam ambientalistas e ruralistas

ESTADO DE MINAS – Mercado prevê PIB abaixo de 3% pela primeira vez

J. DO COMMERCIO – Oposição quer processo contra Lula

ZERO HORA – Mendes confirma diálogo; Lula se declara indignado

Artigo temático sobre caso Lula x Gilmar Mendes

Chantagem de Lula e o esgoto fétido da política

MIRANDA SÁ ( E-mail: mirandasa@uol.com.br )

 

Tudo indica que a CPI do Cachoeira irá quebrar o sigilo das contas da Delta, a empreiteira do PAC, graças à inconfidência de Vaccarezza, desnudando a imoral blindagem de Sérgio Cabral. Mas é improvável que a investigação parlamentar chegue ao alicerce da corrupção da relação público privada do contraventor e os governos.

Por que a CPMI foi uma invenção de Lula da Silva para investir contra a liberdade de imprensa através da revista Veja, e atacar os tucanos envolvidos no esquema da corrupção de Carlinhos Cachoeira.

Passou despercebido por muita gente – inclusive por mim – que por baixo do pano, havia outro objetivo do Pelegão: retardar o julgamento do Mensalão, o que se revelou agora com a imoral chantagem dele sobre o ministro Gilmar Mendes, do STF, deixando evidente um pérfido trabalho de desmoralização da Justiça para salvar os quadrilheiros lulo-petistas do escândalo.

A extorsão de Lula teve a ajuda do conhecido Nelson Jobim, falsificador confesso da Constituição de 88, que convidou Gilmar Mendes por telefone para o encontro no seu escritório. Esse indecoroso episódio foi marcado por uma pergunta direta do ex-presidente e da resposta tímida do juiz do Supremo:

- “Não tem como adiar o julgamento?”, perguntou Lula. – “Se for adiado, o Supremo sofrerá um desgaste profundo”, argumentou Gilmar…

Diante da resposta, Lula disse ter controle da CPI do Cachoeira e garantiu blindagem a Gilmar isentando-o de envolvimento com o senador Demóstenes Torres numa viagem a Berlim de ambos, com as respectivas esposas, tudo pago por Cachoeira.

O preço da ‘proteção’ oferecida pelo Pelego chantagista seria a prescrição do julgamento dos mensaleiros Delúbio Soares, José Genoino, Marcos Valério, Duda Mendonça e outros 32 réus menos votados.

Para não desacreditar o STF junto à cidadania – felizmente – Gilmar Mendes reagiu com dignidade, dizendo que viajou com Demóstenes “que eu e o senhor conhecíamos antes…” E recomendou a Lula: ”Vá fundo na CPI”.

Ainda no encontro, Gilmar ouviu Lula dizer que encarregaria Sepúlveda Pertence, ex-ministro do STF, de convencer a ministra Carmem Lúcia para atrasar o julgamento.

Essa trama desleal e traiçoeira acarretaria uma crise institucional em qualquer país civilizado; aqui ainda encontra alguém que desacredite ou considere normal o ocorrido. Por felicidade, essa negligência obscena não repercute entre os homens de bem, patriotas e republicanos.

Assim, o decano do STF, o ministro Celso de Mello, censurou com dureza a ação de Lula, dizendo que se ele ainda fosse presidente da República, seu comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro.

Também o ministro Marco Aurélio, considerou que foi um tipo de acontecimento que não se coaduna com a liturgia do Supremo, e que “(…) Precisa-se compreender que um ministro do Supremo não é cooptável”.

Há muitas opiniões convergentes e lamentações de que o processo do Mensalão continue engavetado no STF, sofrendo manobras para que atrase e conseqüentemente prescreva. Mas nos satisfaz a promessa do atual presidente da Alta Corte, ministro Ayres Britto, de que submeterá ao plenário a agenda do processo e que marcará o julgamento para o início de junho com sessões que se estenderiam até julho.

É pena que isso fique na dependência do ministro Ricardo Lewandowski, revisor, e do ministro-relator Joaquim Barbosa, que avisou que deve viajar no início de julho, já estando de passagem comprada…

Também entra em cena o perigo de que o cronograma imaginado por Ayres Brito ultrapasse a data da aposentadoria do ministro Cezar Peluso, marcada para o final de agosto.

Por tudo isso, fica revoltante se imaginar que a chantagem de Lula venha cair no fosso da impunidade e que as penas dos quadrilheiros do Mensalão venham a prescrever, arrastando o Poder Judiciário para o esgoto fétido da política, levando com ele a nossa República.

 

Murilo Mendes

JANDIRA
O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis
[ do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira…

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham
[ importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de
[ Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de
[ Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda
[ de Jandira.

E seus cabelos cresciam furiosamente com a força
[ das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de
[ Jandira.

E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os
[ seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
[ que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o
[ princípio do tempo.

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a
[ cidade
E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e
[ transparente.

Governo vai simplificar tributos e pode subir alíquota

Proposta prevê a unificação das contribuições PIS e Cofins e deve ser feita por meio de medida provisória

O governo prepara uma reforma em dois dos mais complicados tributos cobrados no País: as contribuições para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e para o Programa de Integração Social (PIS). Na sexta-feira, a proposta foi levada à presidente Dilma Rousseff pelos secretários Nelson Barbosa (executivo da Fazenda) e Carlos Alberto Barreto (Receita Federal), numa conversa da qual participou também o empresário Jorge Gerdau. O plano prevê a unificação da Cofins e do PIS, dando origem a uma única contribuição, com modelo mais simples de cobrança. Com a mudança, o governo pode perder receita e, por isso, estuda elevar a alíquota do tributo. A alteração na legislação exige apenas uma lei ordinária e pode ser feita por meio de medida provisória. (Estadão)